Café com neblina imprevista   (30/08/2015)
Contos
Por: Perce Polegatto

(Trecho de romance)

 

Quanto a Júlio, nunca houve a marcha em direção aos céus ou à eternidade. Tudo o que podia encontrar estava disperso pelo mundo e à sua volta – só era preciso, às vezes, mover-se em círculos. Vencer a neblina. Não era o homem um produto da natureza sobre si mesma? E talvez fosse a consciência o resultado de um universo desejoso de conhecer-se, de interpretar-se por meio de alguma forma, de algum instrumento de busca semelhante a Júlio, como por meio de qualquer ser pensante, descontando-se algum exagero, entenda-se. Era preciso atirar-se à frente do espelho. Pensar numa questão já pensada. Rever os mesmos fósseis. Dizer outra vez. Ainda que tudo parecesse gasto. O disco crepitando sob a agulha ordinária, reconhecendo sulcos, como a própria comparação com a vitrola antiquada, a faixa das ruas e o ruído da agulha. Júlio estava vivo. Gasto. Um homem cinzento por toda parte, por ruas demasiado conhecidas. Sob a neblina. Percorrendo seus sulcos.

Os últimos dias de agosto



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